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Nebulosa

A humanidade deixou para trás a Terra e perdeu suas raízes. Séculos depois, o império interplanetário fundado no planeta Nebulosa está ruindo em uma crise política, pois cada uma das famílias nobres que governam os planetas mais poderosos da galáxia quer tomar o poder para si. A ciência caiu em descrença, os cientistas tiveram de se travestir de sacerdotes e as universidades tornaram-se seitas religiosas. Em meio a esse caos, Dédalo, um jovem prodígio da matemática, é capaz de prever com uma precisão absurda o assassinato do imperador e tenta impedir a iminente guerra que se avizinha.

A herdeira de um conde morto é levada, ainda bebê, para um planeta pobre e cresce em meio ao povo; um soldado se nega a matar civis e é deixado para morrer em um planeta inabitado; dois piratas espaciais preparam-se para um último grande roubo… Nebulosa é uma space opera gigantesca, repleta de reviravoltas e mistérios, com personagens cativantes e profundos que se entrelaçam em uma trama complexa. As inspirações vão desde Game of Thrones até Fundação, passando por clássicos da ficção científica como DunaOs Despossuídos Leviatã Desperta, além de grandes obras da literatura como Moby DickGuerra e Paz, A Odisseia e Os Miseráveis.

Aguarde por mais novidades e leia um trecho do livro:

 

Capítulo 11

Por um breve momento, Dédalo pensou ter visto Nebulosa em toda sua imensidão, um corpo celeste tão imaginavelmente grande e iluminado que deveria ser apenas uma ilusão. A profusão de cores, luzes, naves, letreiros iluminados por néon, estruturas de metal escovado reluzente, robôs voando por todos os lados, cargas sendo transportadas em um bailado caótico… Tudo aquilo o hipnotizou de tal modo que ele realmente pensou ter visto Nebulosa. Só então se deu conta de que tinha avistado apenas o espaçoporto de Nebulosa, que por si só já era mais resplandecente que Agro IV. Pela impressão que aquela construção causara em Dédalo, ele podia jurar que a estação espacial era maior do que o planeta de onde ele partira havia dez dias.

Através do vidro embaçado da escotilha, o jovem matemático observava incrédulo o espaçoporto com seus cruzadores, cargueiros, fragatas, corvetas, caravanas de comerciantes, naves policiais, robôs de transporte, embarcações particulares, contratorpedeiros, até mesmo um ferro-velho que mantinha-se na mesma órbita estacionária da estação. Somente a quantidade de sucata armazenada lá parecia, aos olhos do garoto caipira, maior e mais imponente do que qualquer coisa que já vira até então. Ao longe, divisou um porta-naves, o maior tipo de embarcação militar que existia no império, do qual entravam e saíam dezenas de objetos que ele não conseguia identificar a olho nu.

O lixo espacial e os inúmeros satélites visíveis na órbita de Nebulosa confundiam-se, para quem ainda não havia penetrado a atmosfera, com as doze luas multicoloridas do planeta. Essas cores haviam sido criadas artificialmente com a instalação de pedras preciosas na superfície de algumas luas que receberam o nome do minério com que foi revestida. Dédalo conseguiu distinguir as luas Esmeralda, Rubi, Safira e Ametista através do vidro, mas seu campo de visão era limitado.

Somente quando o anel giratório da nave colocou-o em um certo ângulo, ele pôde ver mais luas, mas aquilo já não importava. O que surgia em sua janela era muito maior, muito mais soberbo do que tudo o que Dédalo já havia testemunhado em sua vida anterior de caipira e matemático. Ele vira muitos filmes em realidade virtual que se passavam em Nebulosa. Imaginou que não seria uma grande surpresa visualizar uma paisagem em que ele já havia estado virtualmente. Não poderia ter se enganado mais. Pode ser que alguns lugares não traziam nada de novo quando vistos ao vivo, mas ninguém seria capaz de se esquecer da primeira visão de Nebulosa.

O primeiro vislumbre que Dédalo teve da opulenta capital do Império Humano de Órion — afinal tudo o que a humanidade já havia explorado reduzia-se a uma pequena fração do braço de Órion, na espiral da Via Láctea — foi um imenso ponto escuro em meio aos focos de luz, que ele logo descobriria ser a única floresta do planeta, nos arredores do palácio imperial. Era madrugada onde o imperador repousava, mas isso não significa que a capital dormia. Nebulosa era um planeta de uma só cidade, como cavernas de aço em uma selva de arranha-céus. Recoberto por metal, aquele já fora um paraíso natural, com florestas, montanhas, lagos, oceanos, desertos, pradarias, campos, pântanos, cordilheiras, colinas, vulcões, rios, ilhas, arquipélagos, fiordes, praias, geleiras e tudo o que se pode imaginar. Toda sorte de plantas crescia e, embora ainda não houvesse vida animal por ser um planeta relativamente jovem, já existiam microorganismos em enormes quantidades. Ninguém mais sabe disso hoje em dia, mas foram essas características que fizeram a humanidade apontar sua Grande Arca para Nebulosa quando a Terra se tornou inabitável.

Agora nem mesmo o oxigênio da atmosfera era natural. Tudo era fabricado artificialmente para sustentar o ritmo de vida dos habitantes da capital. Cordilheiras de montanhas foram aplainadas, vales foram preenchidos, desníveis foram nivelados, rios, lagos e oceanos secaram, pântanos e desertos desapareceram, florestas foram devastadas, geleiras foram derretidas, vulcões foram calados, assim como a vida. A supremacia tecnológica da humanidade relegou  a atividade geológica de Nebulosa a nada, transformou tudo em terreno fértil para a construção de edifícios cada vez mais grandiosos, até que toda a superfície do planeta foi tomada por uma única cidade, que se estendia de um polo a outro. A linha do equador era a avenida principal de Nebulosa. Pessoas moravam em um hemisfério e trabalhavam em outro. Locomoviam-se em questão de minutos entre pontos antipodais. Começo e fim eram homogêneos, a mesma coisa. As distâncias físicas foram vencidas, mas algo havia se perdido, e não era de agora.

A noite na cidade de Nebulosa era tão iluminada pelos postes e máquinas e luminárias e naves e casas e lojas e empresas e estabelecimentos e prédios e ruas e vias aéreas e luzinhas que piscavam intermitentemente sem qualquer motivo aparente, que o planeta parecia emitir luz própria no hemisfério que não estava sendo tocado pelo sol. Dédalo então ativou a proteção ocular de suas lentes e olhou diretamente para o sol de nebulosa, mas o que viu foi decepcionante. Ele não brilhava tanto como ele esperava. Algo o eclipsava parcialmente. Com cuidado, o jovem aumentou o zoom em suas lentes, e então notou que uma imensa estrutura estava sendo construída na órbita baixa da estrela. Aquele era um captador de energia solar que deveria permitir que Nebulosa tivesse uma eficácia energética muito maior, porém estava em construção havia séculos.

Energia, aliás, era a principal deficiência da capital, além, é claro, de água, comida e recursos naturais. O planeta tirava o que precisava de suas luas. Havia os satélites naturais que não eram utilizados para nada, pois haviam sido revestidos de pedras preciosas para ostentar o poderio do império. Outros, porém, eram reservatórios para Nebulosa. Solaris era uma lua que havia sido inundada até ter todos os pontos de sua superfície totalmente submersos, e de lá retirava-se a água de que a capital necessitava. Um pouco da comida e dos minérios eram cultivados e extraídos das outras luas, mas a maior parte ainda era recebida como tributo imperial recolhido pelos outros 107 planetas submissos ao trono de Nebulosa. As recentes tensões políticas, a guerra com os reinos dissidentes e a crise econômica do império eram alguns dos fatores que Dédalo havia colocado em seus cálculos para descobrir que o imperador corria perigo.

O jovem matemático sobressaltou-se quando uma mão tocou seu ombro.

— Chegamos, garoto — disse ternamente o arqui-sacerdote da Universidade de Agro IV.

A primeira decepção com Nebulosa veio antes mesmo de chegar à superfície do planeta. Pensei que eles já tivessem solucionado o problema da gravidade artificial, lamentou Dédalo, percebendo que teria de flutuar para chegar ao saguão principal do espaçoporto. Só então ele notou uma coisa, observando os outros passageiros. Embora houvesse permanecido recluso naquele fim de mundo, Navutan tinha uma certa destreza para se locomover sem gravidade. Será que ele viajou bastante em sua juventude? Diana era uma excepcional flutuadora, podia mover-se com a fluidez de uma bailarina e a ferocidade de uma guerreira, voando como uma ave de rapina pelos corredores da estação espacial.

O elevador era um luxo. Um gigantesco tubo transparente com 100 metros de diâmetro com lojas, cafeterias, tabacarias, loterias, restaurantes, toda sorte de estabelecimento que se podia imaginar. Máquinas vendiam bebidas e comidas a preços proibitivos, anúncios piscavam por todo lado — inclusive nas lentes de Dédalo, que mal conseguia distinguir qualquer coisa à sua frente e precisou desativar as propagandas — e placas eletrônicas estampavam notícias, traziam curiosidades e apontavam direções. O jovem notou também que era a primeira vez que ele descia consciente pelo elevador, e só então descobriu como o ouvido se tampa se faz esse trajeto rumo à superfície, onde a pressão atmosférica é muito maior. Logo, descobriria que essa não era a única pressão a aumentar quando se chega ao rés do chão de Nebulosa.

Cela 108

Capa do livro Cela 108

Capa do livro Cela 108, feita pelo artista Leonardo G. Filho

Cela 108 conta a história de Dante, membro de um grupo de rebeldes e funcionário infiltrado no alto escalão do governo, lutando para libertar a Pátria, país fictício que serve como pano de fundo para a trama, de uma ditadura que já se estende por décadas. Inspirado em clássicos da distopia como 1984, de George Orwell, Fahrenheit 541, de Ray Bradbury, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, o livro traz referências distintas, desde a Divina Comédia, clássico do poeta italiano Dante Alighieri, à República de Platão, passando por Wilhelm Reich, estudioso da psicologia de massas do nazismo.

Na Pátria, as crianças são retiradas dos pais após o nascimento e doutrinadas pelo Estado. Qualquer um que não concorde com as políticas do Presidente é levado para campos de trabalho forçado ou até mesmo para a forca. A arte é sumariamente proibida e os livros de história foram apagados em prol da criação de uma ditadura absoluta do Partido. Após perder o amor de sua vida em uma tentativa fracassada de se revoltar contra o Estado, Dante tornou-se um homem obstinado e amargurado. Filiou-se às forças rebeldes que sempre agiram secretamente na Pátria, infiltrou-se no alto escalão do governo e, depois de muitos anos de trabalho, o braço direito do Presidente está prestes a liderar o golpe que pode mudar os rumos história para sempre. É nesse ponto que o livro começa. Mas tomar o poder é suficiente para libertar o povo ou o trono corrompe?

O autor

O escritor André Cáceres, autor do livro Cela 108 e colaborador do caderno Aliás, do Estadão

André Cáceres é jornalista e escritor. Gosta de fantasiar sobre mundos que não existem, passados que não aconteceram e futuros que não chegaram.
Foi repórter cultural entre 2013 e 2015 no portal UOL e atua no jornal O Estado de S. Paulo desde de janeiro de 2016. Escreve sobre literatura no caderno Aliás, do Estadão, colaborando principalmente com artigos e entrevistas sobre ficção científica.
Em 2014, André Cáceres ficou entre os vencedores do Desafio Scribe de Contos, tendo seu conto “Hotel Califórnia” publicado na antologia do concurso. Em 2016, seu poema “A Desjornada do Herói” também esteve entre os vencedores do concurso Pauliceia 900.
No mesmo ano, escreveu, em parceria com a jornalista, escritora e companheira Bruna Meneguetti, o livro de não-ficção “Corações de Asfalto”, que narra oito histórias de pessoas que trabalham nas ruas de São Paulo. Atualmente está escrevendo a space opera “Nebulosa”, que mostra um império interplanetário em guerra. Você pode ler um trecho desse livro aqui.

  1 comment for “Home

  1. Eneas Martins
    1 de junho de 2017 at 22:06

    Parabéns André! Seja feliz

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