Hotel Califórnia – conto do projeto “FicSampa”

O texto a seguir faz parte do projeto “FicSampa”, um livro de contos pulp que se passam na cidade de São Paulo em diversas épocas do presente, passado e futuro. 

As piores espeluncas costumam ter os nomes mais pomposos. Era isso que se passava pela mente do detetive Buarque enquanto ele subia as escadas estreitas e com cheiro de mofo do nada luxuoso Hotel Califórnia. A fachada do estabelecimento se limitava a um pequeno letreiro de neon azul sobre uma portinha ao lado de uma boate na Rua Augusta. Atrás do balcão imundo, um velho se distraía com a televisão, que exibia os minutos finais da vitória do Corinthians sobre o Guarani. Ele usava um macacão abarrotado e seu bigode esbranquiçado cobria a boca por completo. A cabeça calva, polvilhada de pintas, coberta por uma boina cinza, não se moveu com o sino que tocou no momento em que a porta se abriu. O homem de sobretudo marrom amassado, sapatos gastos e um chapéu discreto adentrou o recinto segurando uma grande mala.

— Olá, meu bom senhor — cumprimentou com amistosidade.

— Ora essa, hoje é 7 de setembro, rapaz. As garotas não trabalham tão cedo — respondeu o velho, ríspido, sem tirar os olhos da televisão.

— Eu não estou atrás desse tipo de serviço. Vim para me hospedar — o balconista virou-se com curiosidade, observando a figura de cima a baixo. Enquanto olhava para o cliente, Rivellino marcava mais um gol para sacramentar a vitória. Nem isso o fez voltar sua atenção para a televisão. Após alguns instantes de silêncio constrangedor, o velho esticou o braço e entregou uma ficha para ser preenchida. Antes que Buarque pudesse pegar o papel, ele recolheu-o rapidamente.

— Você é militar? — esquadrinhou o sujeito de cima a baixo.

— Não.

— Parece um milico.

— Já disse que não sou — abriu a mão para receber a ficha. Manteve o gesto por alguns segundos, até que o velho entregou-o o papel. O detetive tirou uma caneta do bolso interno do sobretudo e preencheu as lacunas. Colocou em cima do balcão e pegou a chave do quarto número 108.

— Final do corredor, à direita — rosnou o velho, verificando os dados na ficha. — Detetive? — olhou para ele, desconfiado. — O pagamento vai ter que ser adiantado.

Buarque jogou duas notas amassadas sobre o balcão, ao lado de um jornal do dia que noticiava a iminente inauguração das primeiras estações do metrô em São Paulo. Antes que o velho pudesse reclamar de mais alguma coisa, virou as costas e seguiu pelo corredor. Havia apenas oito quartos, quatro de cada lado. Os pares ficavam à direita, enquanto os ímpares, à esquerda. Ele pôde ouvir um gemido alto vindo do quarto 103. Ele não disse que elas não trabalhavam tão cedo?, pensou. Entrou no 108 e trancou a porta.

Fugir do passado é muito mais difícil que fugir de uma prisão, ponderou o ex-policial militar. Faz cinco anos que não venho para essa cidade, e ela está mais maluca do que antes. Buarque era apenas um jovem cadete quando foi exonerado da corporação por assassinar o próprio parceiro em 1969. Aquele bastardo… me fodeu até depois de morto. Acusado de ter forjado o acidente fatal, Buarque já estavam sendo investigado antes mesmo da morte do cadete Vasconcellos, que estava prestes a ser promovido a sargento. Ele não cumpriu a pena à qual foi condenado pois simulou um suicídio e fugiu para o interior de Goiás. Passou os últimos anos empregando suas habilidades a uma modesta agência de detetives particulares em Planaltina. Resolvia casos simples de traição e enviava fotos com as provas para esposas. Daquela vez era a mesma coisa, com a única diferença que ele havia sido mandado justamente para o ninho de cobras de onde fugira cinco anos atrás.

Respirou fundo. Vou apenas cumprir meu serviço aqui, tirar as fotos e cair fora desse lugar nojento. Nada daria errado. A cliente havia informado o hotel em que o marido sempre se hospedava nas viagens a São Paulo. Só faltava saber o quarto. Pegou o telefone do gancho. O aparelho tinha um aspecto repulsivo. Buarque dirigiu-se ao banheiro, não menos sujo, e molhou um pedaço de papel higiênico. Limpou o telefone e, enfim, discou o número da cliente. A discrição necessária para sua profissão o havia transformado em um homem lacônico. Suas poucas palavras eram compensadas pela perspicácia e inteligência.

— Olá, Dona Iolanda. Estou no hotel. Seu marido já chegou por aqui?

— Chegou sim, detetive. Ele me ligou para avisar que está bem. Perguntei o quarto em que ele havia se hospedado. Ele achou estranho eu ter questionado isso, porque… — a mulher era o extremo oposto do lacônico Buarque, o que o irritava sensivelmente.

— Que quarto? — perguntou, impaciente.

— Ele disse que estava no 103.

— Obrigado — desligou sem mais delongas. A parte difícil já está feita, calculou. Aqueles gemidos são mais do que suficientes para concluir que o alvo está traindo a mulher. Só preciso tirar as fotos agora. Colocou a mala sobre a cama e retirou os equipamentos para fotografar. Posicionou o espelho do banheiro na fresta da porta, de modo que era possível ver o corredor todo de dentro do quarto. A câmera estava a postos, apontada para o espelho. Espero que eles não demorem muito com isso. Enquanto aguardava algum sinal de movimentação, ele montou um laboratório de revelação fotográfica improvisado na banheira. Queria sair da cidade o mais rápido possível. Só aceitou aquele serviço porque o pagamento era muito bom e ele era o mais preparado para aquilo, afinal o alvo também era ex-policial. Se algo desse errado, ele saberia como agir.

Buarque achava que o cadete Vasconcellos estava metido em uma falcatrua com as licitações das obras do metrô paulistano. Ele tentou denunciar o parceiro à corregedoria da Polícia Militar, mas aparentemente todos os homens lá de cima também estavam atolados até o pescoço com as fraudes. O parceiro corrupto morreu em um acidente de carro, e quem acabou incriminado foi o próprio Buarque. Além de roubar meus méritos, ainda acabou com a minha vida. Ele começava a suspeitar do motivo que o levara a aceitar aquele trabalho. Ex-policial de São Paulo, tem mais ou menos a minha idade e parece que está envolvido com licitações do metrô… Seria coincidência? Balançou a cabeça, espantou aquele pensamento e voltou a se concentrar na câmera. Às vezes, aquela tarefa podia se revelar muito maçante. No entanto, ele não precisou aguardar muito.

Poucos minutos após montar tudo, ouviu o ranger de uma porta se abrindo. Ajustou a lente, preparou os cliques. Uma moça atraente saiu, vestindo uma saia curta, meia calça transparente e uma blusinha apertada, os seios fartos quase saltando para fora. Os cabelos ruivos escondiam seu rosto, mas não o sutiã, que transparecia no decote. Atrás dela, saiu um homem de cabelos grisalhos bem aparados, forte, vestindo uma camisa social alinhada e calça de sarja marrom. Buarque disparou várias vezes, como fazia nos tempos de policial, mas agora com a câmera. Torceu para conseguir capturar o rosto do alvo. Eles deixaram a chave com o velho no balcão e desceram as escadas em direção à rua. Estava feito. Só precisava revelar as fotos e poderia voltar para o fim de mundo em que ele havia se enclausurado. Recolheu o espelho e o equipamento, fechou a fresta da porta e foi para seu laboratório improvisado no banheiro. A luz vermelha o deixava desconfortável, mas ele fingia não se importar. As bacias com os líquidos estavam posicionadas dentro da banheira suja e trincada. Por mais que a iluminação fosse agonizante, ele gostava da sensação de estar sozinho. Sentia-se seguro dentro daquele cubículo claustrofóbico. Passava cuidadosamente as fotos pelos fluidos, apreciando a química fazendo seu trabalho. A imagem surgiu diante de seus olhos e ele não acreditou no que estava vendo.

Não pode ser!

A foto pendurada parecia uma provocação. As outras iam sendo reveladas, e também iam revelando uma realidade que Buarque não queria ver. Não é possível! Esmurrou a parede, rachando um azulejo. Eu fui ao enterro desse canalha. Como ele pode estar aqui? O sangue subia à cabeça. Agora ele sabia porque tinha aceitado aquele serviço estranho. Porque tinha ido até São Paulo atrás de um suposto fornecedor que participava das licitações do metrô. Correu para fora do banheiro, iluminando o ambiente e queimando as fotografias. Pegou o telefone e começou a discar. Naquele momento, sua perspicácia o estacou. A esposa havia falado muito, até mesmo sobre as fraudes, mas não tinha nem mesmo uma foto 3×4 do marido para ajudar na investigação. Será que…? E aquele velho perguntou se eu era militar e pediu para pagar adiantado. Ele sabia de tudo!

Um turbilhão de pensamentos se passavam por sua cabeça, a respiração estava ofegante. Antes que ele percebesse, já havia sacado a arma de dentro do compartimento secreto de sua mala. Estava encostado próximo à porta, como um policial à espreita do bandido. Nunca pensei que fosse fazer isso de novo. Espiou pela fresta. Ninguém. Colocou o revólver discretamente dentro da calça e verificou a porta do quarto 103. Droga! Trancada…

Olhou para o balcão. O velho estava dormindo sentado de frente para a televisão. Um desfile militar de 7 de setembro estava sendo transmitido. Girou novamente a maçaneta em vão. Dirigiu-se para o balcão e se certificou de que ele estava adormecido mesmo. O ronco era encoberto pelo chiado do aparelho de TV. Ele se esgueirou para dentro do balcão e procurou pela chave. O fedor do balconista o atordoava enquanto ele buscava o pequeno objeto. Finalmente encontrou. Encostou no metal, que balançou e tilintou contra as outras chaves que estavam penduradas. O velho bufou e virou o rosto para o outro lado. Buarque prendeu a respiração por alguns segundos. Em um movimento rápido, desenganchou a chave e puxou-a para si. Um estampido de tiro o assustou. O coração disparou. Eram os soldados que marchavam pela Avenida Ipiranga na televisão. Voltou a respirar, praguejou silenciosamente e voltou para o quarto 103. Abriu a porta e devolveu a chave onde a tinha encontrado. Entrou e fechou a porta.

A maçaneta girou em falso duas vezes antes que abrisse. Ué, eu deixei aberta? Espero que ninguém tenha entrado aqui, pensou o homem, que voltava do restaurante no qual havia comido com a garota ruiva antes de deixá-la em outro hotel nojento onde ela provavelmente tinha de atender um novo cliente. Entrou no quarto 103. No instante seguinte, ele se arrependeu. Suas gavetas estavam reviradas, tudo havia sido vasculhado.

— Finalmente tenho toda a papelada necessária pra te colocar atrás das grades, cadete Vasconcellos. Você nunca vai se tornar sargento antes de mim, seu maldito — a voz irrompeu do banheiro escuro e vinha de um homem de sobretudo marrom e olhar raivoso que apontava uma arma.

— Não me machuque!

— Ou será que eu devo dizer… Senhor Isaías? É esse o nome que você tem usado nesses anos, não é? — jogou vários papéis sobre a cama. Documentos relacionados às licitações de material para as obras do metrô.

— Do que está falando? — o olhar de pavor era latente no rosto do sujeito.

— Você não vai me fazer de bobo mais uma vez. Eu já fui incriminado pela sua morte uma vez. Agora vou te matar de verdade e acabar com isso de uma vez por todas! — O barulho acordou o velho, que quase caiu da cadeira.

No dia seguinte, sobre o balcão, havia uma nota de rodapé no jornal, logo abaixo da notícia sobre uma rebelião em Moçambique.

“Folha de S.Paulo – 8 de setembro de 1974
Ex-policial dado como morto é preso por assassinato em São Paulo

O cadete Filipe Buarque foi preso em São Paulo por assassinar a sangue frio o empresário Isaías da Costa em seu quarto de hotel, na Rua Augusta. O criminoso havia sido preso há cinco anos após ter provocado intencionalmente o acidente fatal do sargento Elias Vasconcellos, mas forjou o próprio suicídio e escapou do presídio. O ex-policial militar foi detido em flagrante e encaminhado para o 4º Distrito Policial da Consolação. O motivo do homicídio ainda está sendo investigado, e a polícia não descarta nenhuma hipótese.”

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