Livro Nebulosa

Leia um trecho de Nebulosa:

 

I

Os últimos ventos quentes do verão quebravam contra a face de Dédalo, derretendo-se, escorrendo pela epiderme, infiltrando-se narinas adentro, envolvendo-o como uma placenta. Inclinado, o sol cintilante investia agressivamente contra seus olhos, forçava-o a virar o rosto, a observar o mundo de soslaio. Aspirou profundamente o ar limpo e esporeou o cavalo, agarrado às crinas doiradas que esvoaçavam expostas à brisa. Desprovido de qualquer tipo de sela, sentiu o trote do animal acelerar, mas concentrou-se em perceber seus batimentos cardíacos. Dédalo podia jurar que seu coração estava sincronizado com o de Pégaso. Fechou os olhos para deixar que o bicho o guiasse em sua sabedoria natural. Afagou o pelo macio, notando cada músculo do flanco do cavalo insuflar-se com o esforço, em um movimento coreografado, subindo e descendo num bailado regular. Não saberia dizer por quanto tempo manteve-se assim, mas cavalgou por campos verdejantes, vencendo colinas viçosas, prados e campinas de beleza ímpar. O céu à frente parecia tornar-se mais e mais acobreado à medida que o mustangue avançava. O mato balançava com a ventania enquanto Pégaso perdia velocidade, perdia, perdia, perdia até parar rente à espessa camada de vidro, uma superfície transparente que partia de muito abaixo do solo e despontava quase verticalmente para o céu, revestindo feito uma grande bolha protetora uma área de centenas de hectares.

Dédalo apeou do cavalo, tirou as esporas, descalçou as botas e tocou os pés desnudos na grama úmida. De costas para a superfície envidraçada, contemplou longamente a paisagem exuberante em que estava. Virou-se, agora encarando a gigantesca redoma que recobria toda a colônia em que ele morava. Do outro lado, tudo era desolação. Terra vermelha batida compunha uma rubra paisagem desértica, estéril, em que apenas pedras habitavam um cenário morto, de melancolia sem fim. Avistou um pequeno brilho ao longe e percebeu que era uma nave de transporte de cargas levando o trigo colhido nos campos para o espaçoporto.

Ele estava dentro de um ambiente totalmente controlado. Sentia-se recluso em um frasco, como a miniatura do suntuoso palácio imperial, no planeta Nebulosa, que vira uma vez dentro de um globo de neve. Nunca havia sentido a neve tocar sua pele, não existia nada daquilo em sua terra, afinal Agro IV era um planeta essencialmente rural e uma colônia enciclopédica, responsável por menos de 5% dos alimentos do sistema governado pelo Barão Minos de Creta, patriarca de uma das mais importantes linhagens da galáxia. Dédalo pouco sabia desses assuntos, apenas ouvia falar da crescente tensão entre os reinos que compunham o império, mas sem se ater muito a detalhes sobre a política espacial. O que ele conhecia mesmo era a matemática. Conhecia tanto que fora convocado para uma audiência com o imperador. Poderiam simplesmente usar um computador quântico para se comunicar à distância. Seria muito mais prático, e eu não teria de enfrentar meu medo de espaçonaves, ele matutou, nervoso, sentindo as mãos suadas.

Dentro do oásis envidraçado, Dédalo observava o sol iluminar a poeira do deserto para além da barreira, criando uma visão escarlate como o sangue. Ele não queria que aquele momento acabasse. Sabia que quando a tarde findasse, chegaria a eterna escuridão e seria chegada a hora de sua partida. Quanta coragem é necessária para deixar para trás tudo pelo que se estima na vida?, pensou Dédalo. Àquela altura, ele desejava não deter tanto conhecimento. O que o imperador iria querer com um caipira como eu? Avistou no firmamento uma nave reluzindo, distante, perdendo-se no espaço.

Embora ele permanecesse naquele estado quase meditativo havia horas, ouvindo apenas o som de Pégaso mastigando capim atrás de si, olhando para o horizonte desértico, o Sol não ameaçava se pôr. Na verdade, a sombra de Dédalo não crescera nem mesmo um centímetro. Disseram que eu partiria à meia-noite. Não faz sentido falar em meias-noites em um planeta que não oferece nem mesmo noites inteiras, ponderou. Agro IV mantinha sempre a mesma face virada para a estrela a qual orbitava, em um eterno dia mascarado apenas pelas placas de uma espécie de acrílico avançado que automaticamente escureciam a redoma ao entorno da colônia. Assim como a grama que carinhosamente roçagava as pernas de Dédalo, o cavalo elétrico que não tinha coração, o vento que fazia suas vestes dançarem, a temperatura que o acalentava e o ar que invadia seus pulmões, também o dia e a noite eram de mentira. Ele vivia uma vida artificial. Tudo naquele planeta era projetado para maximizar a produção de alimentos — exceto pela sua casa, o terreno da Universidade, que era o refúgio dos enciclopédicos, últimos devotos de uma religião quase extinta: a ciência.

 

II

Quando a redoma escureceu, encobrindo a luz solar e engolindo a colônia na escuridão da noite, decidiu que era melhor retornar à Universidade. No caminho de volta, Dédalo não iludiu-se tentando sentir o inexistente batimento cardíaco de Pégaso. Viver na ignorância pode ser uma dádiva ou uma danação. No entanto, ter consciência é sempre uma dor. A dor de saber das agruras da vida.

As árvores, que tanto rareavam perto da borda da estufa, começavam a parecer mais frequentes na paisagem. Pode um homem alimentar-se de mentiras? Pode o simulacro da realidade preencher a alma? Tudo aquilo era falso, mas isso não impediu Dédalo de descer novamente do cavalo para apanhar uma flor. O verão pode não ser de verdade, mas está acabando também. Era a última flor da roseira.

Tornou a cavalgar.

Ao longe, divisou uma estrutura enorme, quase uma cidade vertical, um prédio de proporções absurdas tendo em vista o restante das edificações em Agro IV, tão precárias e rudimentares quanto possível apenas manter a vida dos camponeses. Estremeceu quando os cascos do cavalo deixaram de produzir o baque abafado do impacto com a grama para criar o ruído seco dos passos no concreto no momento em que passou a trotar sobre o concreto da parte urbana da colônia, deixando o mato para trás. A construção cresceu mais ainda em seu campo de visão. Sentia-se abocanhado pela imensidão da Universidade. Antes de adentrar as profundezas do prédio, Dédalo olhou uma última vez para o breu que aprendeu ser o céu noturno. Tentou ignorar que aquilo era apenas acrílico escurecido. O negrume tomava conta de tudo. Não havia estrelas no firmamento de Agro IV, pelo menos não no lado habitado do planeta, afinal na verdade era sempre dia. Os construtores da colônia não foram gentis o suficiente nem mesmo para tentar simular o efeito de uma noite estrelada.

Os grandiosos domínios da Universidade estendiam-se até onde seu olhar podia distinguir alguma construção humana. Ele cumprimentou o robô sentinela que fazia a guarda noturna da entrada do saguão principal. Saguão não é uma boa palavra para descrever o mais amplo espaço no qual Dédalo já havia posto seus olhos. Aquilo era como um grande bulevar, uma praça polvilhada por bancos, árvores, chafarizes e entradas, muitas entradas, para os prédios dos mais diversos departamentos. Em meio aos jardins, pedras recobriam o pavimento dos caminhos que se entrelaçavam, levando para pórticos de entrada dos edifícios dos ministérios sacerdotais. Linguística, física, sociologia, química, biologia, história, psicologia etc. Os enciclopédicos eram os últimos cientistas a buscar alguma integração entre os campos do conhecimento. Todas as outras disciplinas haviam se travestido de religiões para sobreviver.  

As portas do estábulo abriram-se com um estrondo retumbante. Dédalo adentrou, acomodou sua montaria e deixou o local. Pégaso entrou em modo de economia de energia enquanto o rapaz dirigiu-se ao ministério sacerdotal de arqueologia, uma construção tão antiga e imponente quanto as vizinhas. Assim como as outras, remontava ao tempo em que a ciência era prestigiada. Talvez mais impressionante que o tamanho do prédio em si era o fato de que, como seus pares, abrigava volumes iguais acima do solo e em nível subterrâneo.

Nos andares superiores, ficavam os aposentos dos sacerdotes mais elevados. O miolo da edificação era constituído pelos dormitórios dos monges de acordo com suas posições na hierarquia eclesiástica. Dédalo deixou a rosa no chão à frente de um quarto. Tencionou bater na porta, mas a ideia sumiu na mesma velocidade que havia lhe ocorrido.

Abaixo, nos níveis mais próximos do térreo, eram celebrados os rituais religiosos para os visitantes, quase sempre provenientes de outros planetas. A verdadeira alma da Universidade ficava nos graus inferiores, localizados no subsolo, enraizados na colônia de Agro IV. Lá ocultavam-se os laboratórios, salas de aula, espaços dedicados a estudos, pesquisa e experimentos. Sob o saguão principal da Universidade, uma galeria subterrânea unificava todos os departamentos em uma estrutura desconcertantemente grande: a biblioteca enciclopédica.

Um homem teria de nascer e morrer dez vezes para cada planeta colonizado na galáxia caso tencionasse ler todos os livros da biblioteca enciclopédica. Vale lembrar que existem atualmente 108 planetas totalmente adaptados à vida humana, alguns mais, outros menos hostis, sem contar os asteróides minerados, as bases militares em satélites naturais, as estações espaciais densamente povoadas e corpos celestes não habitáveis que contém pequenas colônias, como era o caso de Agro IV.

III

O arqui-sacerdote Navutan estava debruçado sobre uma escrivaninha de olmo, usando uma pena para redigir anotações com uma letra cursiva angulosa. O odor do mofo proveniente das prateleiras sem fim de livros misturava-se ao cheiro característico do tinteiro dele.

— Sobre o que você está escrevendo, mestre? — perguntou Dédalo.

A boca do velho estalou quando se abriu, como se ele fosse dizer algo, mas logo voltou a fechar-se, enrugada como uma flor que murcha ao fim da primavera. O jovem matemático ficou sem saber como tirar Navutan de sua divagação.

— Mestre? — Pigarreou.

— Já lhe respondi, filho — ribombou uma voz potente como um trovão, mas rasgada como um trapo áspero.

— Perdão, mestre. Não compreendo.

— Quando se escreve algo, não deve-se escrever sobre coisa alguma.

— Então você não escreve sobre nada?

— Muito pelo contrário. Eu escrevo sobre nada — disse o decano.

A lâmina do silêncio cortou longa e melancolicamente o ar por alguns segundos antes de Navutan voltar a falar.

— Por que desligou seu comunicador?

O arqui-sacerdote referia-se à lente ocular que todos os cidadãos do império utilizavam. Conectada ao cérebro do portador, essa máquina (o nome era EyePalm) operada por meio de pensamentos e impulsos nervosos serve como um verdadeiro computador pessoal, fornecendo acesso à internet local do planeta. Ainda não havia uma rede integrando todos os sistemas solares do império; somente os computadores quânticos podem comunicar-se à distância graças ao entrelaçamento de suas partículas, mas devido aos custos de produção e manutenção, havia pouquíssimos modelos ativos.

— Às vezes, preciso cortar o acesso aos outros para estabelecer uma conexão verdadeira com meu mundo interior — justificou Dédalo.

— Belas palavras, insensatas decisões — repreendeu o velho. — Sua descoberta impacta a política interplanetária. Não é prudente errar pelos campos ermos sem escolta quando o império todo volta o olhar para você.

— Perdão, mestre. O senhor havia dito que partiríamos ao anoitecer…?

— Espero que suas malas e despedidas estejam em ordem.

Dédalo assentiu com um meneio suave.

— Partamos, portanto.

 

IV

O carro que os levou até o espaçoporto ostentava nas portas o escudo rubro-negro quadriculado com um minotauro de perfil representado ao centro, a heráldica da família do Barão, dinastia que governava o sistema solar de Creta. O automóvel pousou em frente à entrada do edifício. Curiosamente o caminho não mostrou nada da miséria dos camponeses, talvez para poupar os poucos visitantes do vislumbre da vida rural.

Ao descer do veículo e olhar para cima, Dédalo ficou estupefato com a vista dos elevadores espaciais, grandes tubos transparentes que ascendiam aos céus como feixes de luz divinal. O espaçoporto de Agro IV era minúsculo em comparação a outros, como, aliás, quase tudo naquele planeta. Ele ouviu um choro agudo e virou-se para observar o grupo de crianças e bebês entrando em um ônibus que também carregava o brasão dos cretenses. Quase todo o movimento de civis ali era de jovens que chegavam para submeter-se ao aprendizado na Universidade. Muitos deles, órfãos ou abandonados pelos pais, eram enviados ainda bebês, como era o caso de Dédalo. A maior parte do fluxo do espaçoporto de Agro IV, no entanto, correspondia ao carregamento das naves que exportavam a comida produzida na colônia e das que traziam os recursos de que os habitantes precisavam. Por ser apenas uma pequena colônia rural e universitária — publicamente, religiosa —, Agro IV estava longe de ser autossuficiente.

Tudo estava escuro, afinal a redoma determinava que era madrugada, mas aos olhos de Dédalo aquela paisagem reluzia. Ele nunca havia ido tão longe da Universidade em seus 16 anos, contados pela medida imperial. Um ano em Agro IV durava 200 dias de 21 horas, mas o padrão adotado na galáxia era o de 365 dias de 24 horas. Não se sabia o motivo desse sistema de horários, afinal o planeta Nebulosa leva 358 dias para gira em torno de seu sol, e cada dia lá dura 23 horas e 36 minutos.

Os antigos degraus de alumínio rangeram quando Dédalo subiu a pequena escadaria que levava ao elevador espacial, um enorme tubo com cabos esticados dentro dele, transportando plataformas para cima e para baixo. A estrutura subia até a altitude da órbita da estação espacial, onde as naves ficavam todas atracadas, e seguia ainda para além da estação, a fim de fazer contrapeso e manter-se estável. Dédalo adentrou uma sala com alguns banquinhos, uma máquina de café e uma lixeira. Parecia não haver mais nenhuma porta naquela cabine a não ser a que ele usou para entrar no recinto. Havia uma espessa coluna no centro daquele espaço circular. Estava prestes a perguntar onde era a entrada do elevador quando todo o ambiente chacoalhou e rugiu. Então ele olhou através das paredes envidraçadas e percebeu que toda a sala ascendia em direção ao céu. O deslumbramento de Dédalo foi tamanho que suas lentes oculares registraram dezenas de fotos automaticamente enquanto ele permanecia embasbacado com a paisagem. À medida que o elevador espacial subia, o horizonte parecia tornar-se mais encurvado.

— Sente-se, filho. A viagem até a estação é longa.

Por meio de impulsos nervosos enviados por seu cérebro às lentes em seus olhos, Dédalo estava enviando as fotos que tirou para seus amigos na Universidade, mas perdeu o sinal e não conseguiu concluir a ação. Virou-se para Navutan, confuso. O decano da Universidade havia acabado de hackear seu computador.

— Podem estar monitorando suas comunicações. Nós não viajamos durante a madrugada para você alardear nosso trajeto mandando fotos pela rede. Não se esqueça que há muita gente rica e perigosa que faria sacrifícios para ter sua cabeça, rapaz.

— Perdão, mestre.

Dédalo sentia-se no topo do mundo, subindo por uma torre de Babel que perfurava os céus. O firmamento, antes distante, agora parecia um imenso teto de vidro. Ainda contaminada pelo negrume da noite, a redoma ficava mais próxima a cada segundo. Ele não saberia explicar o que sentiu quando o elevador cruzou o céu artificial que Dédalo aprendeu a ter como limite de seu mundo. Mas agora suas fronteiras deixavam de ser o semicírculo que demarcava o firmamento de Agro IV para tornar-se algo muito mais grandioso que ele não fazia ideia do que era. Mas o êxtase tornou-se ainda maior quando ele avistou as estrelas. Uma coisa é tomar consciência da existência das estrelas, estudar sobre e ver fotos daquilo; outra coisa, bem distinta, é fitar o universo diante de si pela primeira vez. Algo dentro de Dédalo simplesmente parecia se quebrar, mas ele não sabia o quê.

Uma voz ressoou em seus receptores auditivos, que eram pequenos microfones instalados no interior dos ouvidos e, assim como as lentes oculares, integrados ao cérebro como parte do computador pessoal.

— Ative a função magnética de seus sapatos — ordenou a voz robótica, parecendo um aviso dentro da mente.

Os dois seguiram as instruções e seus calçados passaram a ser atraídos pelo chão metálico. Aquilo tornava qualquer passo mais difícil, pois era necessário vencer a força de atração magnética para andar. Pelo menos assim eles não sairiam flutuando por causa da microgravidade quando o elevador parasse.

Quando percebeu, Dédalo já estava nas camadas exteriores da atmosfera, como se emergisse de uma imensa cebola. Com exceção do experiente Navutan, ninguém que ele jamais conhecera na Universidade havia saído de lá, ninguém havia subido tão alto depois de chegar a Agro IV, sempre muito jovens. Certa vez, o Barão visitou Agro IV, mas ele não conta, refletiu. Ah, e sediamos os jogos cretenses há uns oito anos. Mas eu não lembro de nada dessa época, então também não conta. É curioso como a humanidade viaja pelas estrelas há séculos, mas alguns planetas são tão provincianos a ponto de mal terem contato com seus pares. Dédalo, então, lembrou-se de uma coisa e preocupou-se com aquilo. Ouvira dizer que as pessoas de planetas menores sofriam com o preconceito da capital por conta de sua aparência. Os nebulistas achavam os habitantes de planetas com baixa gravidade uns sujeitos esguios e altos, porém magros e fracos fisicamente. Agro IV tinha apenas 70% da gravidade de Nebulosa, portanto eles cresciam mais e não desenvolviam tanto seus ossos e músculos. Para o povo da capital, isso resultava em figuras de silhuetas bizarras. Dédalo não sabia se sua genética contribuía ou não para essa característica, uma vez que os estudantes da Universidade costumam ser acolhidos muito jovens e não se lembram de seus pais ou planetas de origem.

— Chegamos — constatou o arqui-sacerdote, tocando o ombro de Dédalo. — Não se preocupe com o preconceito do pessoal de lá. Você verá como são todos umas pessoas diminutas e deprimentes.

— Ei, pare de ler meus pensamentos! — esbravejou o rapaz. Odiava o fato de ser aprendiz de um dos maiores hackers da galáxia. O computador afixado às lentes em seus olhos registrava tudo o que ele pensava e, por vezes, Navutan lhe tolhia a privacidade.

Dédalo olhou para o alto. Além da superfície transparente das paredes do elevador, erguia-se a imponente estação espacial em órbita estacionária, à qual estavam atracadas cinco naves de carga. As embarcações eram muito diferentes do que a humanidade um dia imaginou que seria esse meio de transporte. A ficção científica, desde os tempos mais primitivos, escorreu por entre as penas de seus autores o fluido do desvario, mas a realidade é muito distante do que qualquer escritor pudesse sonhar. No espaço, ninguém pode ouvir você gritar, é o que diziam. Isso é verdade. Justamente por não haver ar. Também é verdade, e pelo mesmo motivo, que não faz sentido construir naves aerodinâmicas. Diferente de carros e aviões, que precisam rasgar o ar como lâminas quentes cortando manteiga, as naves viajam por um meio que não oferece resistência: o vácuo.

A dificuldade de se navegar pelo vazio é que ele não é exatamente tão vazio assim. Mesmo minúsculas partículas podiam atingir as naves com o impacto de várias bombas atômicas dependendo da velocidade em que se encontrassem. Já do elevador, a primeira coisa que se via eram as titânicas placas que irradiavam o calor gerado. Composto por nanofibras especiais, o material sintético de que as naves eram feitas era resistente contra os mais diversos raios cósmicos que se encontravam pela galáxia e que podiam provocar graves doenças e até mesmo mutações nos tripulantes. Gigantescos escudos repousavam na fuselagem para proteger de colisões com poeira espacial.

O arqui-sacerdote conduziu Dédalo por um corredor até uma câmara de pressurização ligada à estação. Ouviu a o ar preenchendo a câmara do outro lado da porta vedada em um sussurro sibilante, como se segredasse algo de ruim sobre a viagem que estava prestes a realizar.

 

V

Dédalo queria esquecer as últimas duas horas. Passara boa parte desse tempo vestindo o desconfortável traje espacial e recebendo instruções para aprender a se movimentar em um ambiente sem gravidade. Assim que embarcou e viu-se literalmente sem chão, estremeceu. Aquela era, ao mesmo tempo, a melhor e a pior sensação que já tivera. Nunca esteve tão livre e tão impotente. Seu corpo parecia se mover por vontade própria, as extremidades dos dedos formigavam, parecia não haver sangue suficiente em suas veias. Além dele, apenas Navutan e quatro militares imperiais estavam lá, suspensos no ar. A tripulação, composta de dois soldados, o piloto e o copiloto, passava para lá e para cá voando com uma habilidade invejável. A monumental barba branca de Navutan estava solta, parecia dividir-se em tentáculos esvoaçantes partindo de seu rosto, como mil galhos saídos de um tronco de carvalho talhado pelo tempo em rugas.

As naves costumavam ter enormes anéis giratórios que simulavam gravidade pela força centrífuga, onde ficavam localizados os quartos e espaços de convivência, mas aquele era apenas um cargueiro velho, caindo aos pedaços. Aquele recinto empoeirado, insalubre e desconfortável reproduzia-se em todos os ambientes da nave, afinal os cargueiros não costumavam transportar passageiros a não ser em ocasiões extraordinárias. Suas rotas pré-definidas eram percorridas automaticamente, sem necessidade de um humano como piloto. Não havia nenhum compartimento designado a passageiros nessas naves. Por isso, teriam de adaptar-se à ausência de gravidade durante a primeira perna da viagem.  

O custo de levar um cruzador até Agro IV e de volta a Nebulosa era grande, mas o imperador estava mais que disposto a arcar com isso. Quem pediu para viajar em uma nave de carga foi Navutan, a título de discrição. Eles fariam um trajeto mais comprido também, indo com o cargueiro até o planeta Creta, capital do baronato, e de lá partindo em um comboio de fragatas militares que passariam ao largo de Nebulosa a caminho de Metis, um mundo à beira do conflito com seu vizinho, Thesis. Ao mesmo tempo, um cruzador imperial saía de Agro IV escoltado por um contratorpedeiro, e os nomes de Navutan e Dédalo constavam na lista de passageiros dessa nave.

Com um tranco, a viagem começou. O jovem matemático esperava algo mais brusco, mas já estava enjoado o suficiente com aquele baque inicial. Foi comprimido contra a parede da embarcação enquanto ela ganhava velocidade. Os motores de Alcubierre enfim foram ativados, distorcendo o espaço-tempo ao redor da nave. Mesmo assim, de Agro IV, na periferia do baronato cretense, até Creta, demorariam quase três dias inteiros. Esse era um feito incrível, tendo em vista que a luz leva dois anos para percorrer a mesma distância e que eles não estavam violando nenhuma lei da física.

Assim que tudo se estabilizou e os três deixaram de ser esmagados pela aceleração da embarcação, os tripulantes vieram até eles flutuando para desafivelar seus cintos e ajudá-los a se instalar nos aposentos improvisados. Todo aquele ambiente era muito estranho, não tinha teto nem chão. Em qualquer direção, seus limites eram apenas paredes mesmo, pois não existia “cima” nem “baixo”. Se Dédalo queria esquecer as horas de preparação, aparentemente foi bem-sucedido na tarefa, pois não conseguiu se guiar pelo recinto sem gravidade. Flexionou os joelhos e impulsionou-se contra o que seu cérebro julgou ser o chão, mas isso o fez voar e bater a cabeça no que ele chamou de teto. O impacto o desorientou, fazendo-o rodopiar por alguns instantes e perder de vez a noção de direção. Teve a sensação de que iria desmaiar, muito provavelmente pelo fato de que seu corpo estava se acostumando aos efeitos da microgravidade, ainda sem saber para onde exatamente bombear o sangue. Suas mãos e pés formigavam, a visão ficou turva, como se adentrasse um grande tubo. Não se conteve e expeliu o que havia comido no espaçoporto antes do embarque (uma pasta protéica altamente concentrada e sem gosto) em um jato de vômito que se expandiu em todas as direções, chegando até mesmo a criar um efeito bonito, como todo líquido na gravidade zero. Já sem enxergar nada, sentiu alguns pequenos flashes no canto das vistas, sensação que todos experimentam ao deixar a atmosfera de um planeta, e desmaiou.

 

VI

Flutuando no ar após se recompor, ele avistava a carapaça exterior da nave refletindo as últimas luzes de seu sol pelo que poderia chamar de janela de seu quarto. Como pode, pensava Dédalo, com um pedaço de lata, um ser humano deixar para trás tudo o que conhece? Todas as pessoas que já amara, todos os amigos e inimigos, todos os lugares, todos os sonhos, os desejos, os amargores, amores… Estavam todos diminutos como a poeira da nave que agredia suas narinas,ficaram para trás feito a luz da estrela que ele se acostumou a chamar de sol, agora coada pelo vidro em que ele recostava a cabeça. Já sentia falta até mesmo do que nunca aconteceu. As palavras não ditas pesam mais que o mundo em uma despedida.  

O aposento era minúsculo, sujo e possuía apenas um saco de dormir afixado à parede recurvada, algumas gavetas improvisadas para guardar sua bagagem e um aparelho de purificação de ar que não funcionava, mas chiava o tempo inteiro, até mesmo desligado. Cabos e tubulações estavam à mostra por toda parte, recobrindo a estrutura do recinto e tornando a estadia mais desconfortável. Os cantos da escotilha de entrada estavam carcomidos pela ferrugem, provavelmente porque era por ali que entrava a umidade artificial.

Atravessando uma espécie de corredor, havia uma pequena porta arredondada, como um nicho, que revelava-se um banheiro apertado, conectado ao sistema de reutilização de água da nave. O chão, assim como boa parte da estrutura da embarcação, era feito de uma nanofibra de um composto químico tão complexo que as paredes do diminuto ambiente provavelmente não seriam grandes o suficiente para se desenhar a representação de sua molécula.

Aquele aspecto empoeirado e insalubre reproduzia-se em todos os ambientes da nave. Poucas horas após a partida, Dédalo queixou-se:

— Por que viajar em uma lata velha como essa?

— Você sabe a resposta — disse Navutan prontamente na ocasião, dando o assunto por encerrado.

A estratégia de enviar uma nave como cobaia e partir em outra, por um caminho alternativo, foi traçada pelo decano da Universidade porque o jovem calculou que as chances de eles sofrerem retaliação a bordo de um cruzador imperial eram altíssimas. “Calculou”? Calculou, sim. Exatamente. Dédalo havia criado um sistema matemático inteiramente novo, capaz de prever com uma precisão absurda o destino de sistemas caóticos tais como órbitas irregulares de planetas, meteorologia, comportamento de massas humanas, resultados de guerras e até mesmo microdecisões individuais.

Parecia um feito inacreditável, um marco na história do pensamento humano. Não obstante, naquele momento, o prodígio da ciência não pensava muito seriamente sobre as consequências de suas descobertas. Estava concentrado em tentar chegar ao banheiro a tempo de aliviar-se, todavia a inaptidão para deslocar-se sem o alentador auxílio da gravidade era um obstáculo difícil de ser transposto.

Dédalo negligenciara os exercícios físicos recomendados aos passageiros por pura preguiça ou pelo prazer da rebeldia, quem sabe? Graças a isso, sentia seus ossos e músculos minguarem. Passou o final do trajeto quase sem sair da cama. A gravidade artificial no anel giratório era mais intensa do que em Agro IV, e andar parecia exigir um esforço hercúleo de seu corpo. Falta de ar, flashes na vista, pressão baixa, formigamentos e visão turva pareciam parte integrante da viagem para o jovem. Sem apetite, recusou-se a comer durante as últimas 24 horas do trajeto. Navutan, um bocado mais experiente em travessias interplanetárias, passou-lhe uma reprimenda, mas nem assim ele quis se alimentar.

A desaceleração durou algumas horas, tempo em que Dédalo dormiu languidamente amarrado à parede do compartimento de carga da nave, ao lado de Navutan e os militares lacônicos, exatamente como quando partiram de Agro IV.  Mais uma vez, nenhum baque muito traumático foi sentido, para o desapontamento e alívio dele. O cargueiro foi atracado em uma das docas do cais no espaçoporto de Creta. O arqui-sacerdote precisou de alguns segundos para conectar-se à rede local e comunicou sobre o estado de saúde de Dédalo às autoridades, por meio de suas lentes. Alguns robôs-enfermeiros adentraram a embarcação assim que a câmara de pressurização da doca estabilizou a pressão dos ambientes e permitiu a passagem. As máquinas lembravam hominídeos pela estrutura bípede, mas tirando essa característica, não guardavam muitas semelhanças com qualquer humano. Um dos primeiros pontos e cláusula pétrea da Constituição Imperial diz respeito à proibição da construção de robôs similares a pessoas, com tecidos orgânicos ou aparência física de um ser humano. Os enfermeiros levaram Dédalo para a ala médica do espaçoporto, mas ele só despertou após a viagem de elevador até a superfície.

 

VII

A chegada a Creta parecia um sonho após os exaustivos dias de sua primeira viagem interplanetária. O planeta era azul, quase todo coberto em água, repleto de nuvens em sua atmosfera densa. O céu noturno era uma das coisas mais belas do império, com sua lua cor de sangue. Um dos primeiros planetas inóspitos a ser terraformados, ou seja, adaptados à vida humana, essa era a sede do governo cretense e a casa da nobreza. Por toda a região ouvia-se falar da beleza de Creta, de sua gravidade confortável, das formações rochosas, das escarpas vertiginosas, dos fiordes que circundavam a grande área emersa, o elevado em que se localizava o feudo do Barão Minos. As torres do castelo davam a impressão de que podiam tocar o céu. Uma abóbada gigante recobria o salão principal e a maior parte dos cômodos térreos do edifício, rodeada nos quatro pontos cardeais por compridos minaretes. O minotauro da heráldica cretense estampava as paredes, as torres, os azulejos, os escudos pendurados nas colunas, os portões, até mesmo as maçanetas das portas e tantos outros detalhes do palácio. As cores do brasão de armas da família tingiam a construção, chamada informalmente de Castelo Rubro-Negro.

Essas foram as cores que Dédalo divisou no teto ao abrir os olhos. Confuso, notou apenas que estava em um dormitório suntuoso, de móveis luxuosos em cabreúva-vermelha, debaixo de cobertores de linho e mantas em seda com rendas de Éden. Assustou-se ao notar que por baixo de tudo isso estava nu. Levantou-se e, desacostumado com a gravidade, caiu de joelhos. Ralou as palmas das mãos. Lambeu o sangue, sentindo o ardor e o gosto de ferro nas pontas dos dedos. Tornou a levantar e manteve o equilíbrio com certa dificuldade. Creta era um corpo celeste muito mais massivo que Agro IV, exercendo uma atração gravitacional muito mais intensa. Dédalo sentia seu corpo pesado. Parecia que seu coração não seria capaz de bombear o sangue para o cérebro. Passados os instantes iniciais, a visão começou a clarear e a sensação de enjôo passou. Ele vestiu o traje que estava sobre uma mesa ao lado de uma jarra de vinho que decidiu manter intocada para seu próprio bem. As roupas usadas no cotidiano eram das que se livravam das próprias sujeiras e impurezas sozinhas, o que fazia com que a maioria das pessoas não tivesse mais que duas ou três mudas. Aquela indumentária, no entanto, era tradicional, do tipo que precisava ser lavada. O Barão gostava de algumas coisas à moda antiga. Assim que vestiu-se, olhou-se no espelho para apreciar os estranhos babados que pendiam das mangas, os ombros inflados e a espécie de capa que envolvia suas costas. Tudo, é claro, nas tonalidades da nobreza cretense, a família Creta, que habitava o planeta Creta e governava o baronato de Creta.

O império é dividido em condados, reinados, baronatos, entre outras denominações, mas todas essas regiões têm mais ou menos a mesma relevância política. O que muda era a riqueza e a influência das famílias nobres que a ocupam. Os cretenses são uma das mais poderosas, contando com dois planetas próprios e mais cinco governados por nobres que juraram vassalagem a eles.

Quando a porta abriu-se de supetão, Dédalo sobressaltou-se e agradeceu por já estar vestido. Uma garota mais baixa que ele trovejou para dentro do quarto. Se ambos tivessem crescido sob as mesmas condições gravitacionais, ela certamente seria mais alta, pois sua compleição física era invejável apesar de possuir menos idade. Seus cabelos cresciam em todas as direções, do mesmo modo que ela parecia expandir-se como um gás e ocupar o ambiente inteiro com sua presença forte. Ela aproximou-se, observou-o, fitou a cama desarrumada, chegou ainda mais perto, cheirou Dédalo e ignorou seus protestos.

— Hmmmm…

— Ei, o que significa isso?

— Então… É tudo? — murmurou a menina, coçando a cabeça inclinada para o lado. De súbito, virou-se, fazendo seu vestido revoar pelo quarto e saiu dizendo:

— Esperava mais.

Dédalo não compreendeu nada daquilo, mas não teve tanto tempo para refletir. Logo um robô entrou no recinto dando-lhe uma mensagem amigável e conduzindo-o meio à força, meio com educação, para o saguão principal do palácio. O matemático perdeu as contas de quantas portas passaram-se no caminho até a sala gigantesca que abrigava o trono de camurça magenta, em meio às flâmulas quadriculadas em vermelho e preto, a cor do sangue e a cor da pele.

Uma manta de pelúcia abraçava o Barão Minos, que o observava com suas feições rígidas e zangadas de costume. Sobre o couro cabeludo liso e brilhante, repousava uma coroa pequena, de azeviche cravejado de rubis. Ao seu lado, no alto estrado, estavam sentados em cadeiras menores, mas não muito menos imponentes que seu trono, as três filhas. Da esquerda para a direita, havia a herdeira de Creta, Maria; o Barão Minos; o assento vazio da falecida baronesa; a filha do meio, Diana; e a mais nova, Laetitia, que Dédalo reconheceu graças ao estranho encontro que haviam tido mais cedo. Todas envergavam mantos tingidos com as cores da família e o fitavam gravemente. Ele olhou em volta e percebeu que era o único em pé no saguão. Com exceção dos guardas no pórtico de entrada e do próprio Dédalo, o clima de solenidade grassava no ambiente.

— Ajoelhe-se — bradou o robô-arauto ao identificar que um dos súditos mantinha suas pernas eretas.

O matemático fez menção de agachar-se, mas a intensa gravidade de Creta o desequilibrou e quase levou-o a uma queda desconcertante. Segurou-se em pé por pouco. Todos mantiveram-se sisudos, menos Laetitia, a filha mais nova, que não conseguiu disfarçar um riso abafado, logo transformando-o em uma sonora gargalhada imprópria para uma integrante da nobreza. Era evidente que, por mais que parecesse a cópia escarrada da irmã primogênita, ela tinha uma personalidade totalmente diferente. Maria era uma estoica, criada desde o berço para governar, enquanto Laetitia parecia ainda não ter saído das fraldas a despeito de seus 12 anos de idade. Já Diana, a do meio, tinha um aspecto rude e porte atlético, como uma amazona.

— Ajoelhe-se! — berrou mais alto o robô, porém o Barão dispensou-o com um gesto. Ele baixou o estandarte que segurava e suas rodinhas o conduziram para outro cômodo do palácio, já desligado.

— Podem se levantar — disse Minos, com sua voz rouca. Embora não fosse tão velho quanto a maioria dos governantes, a vitalidade do Barão havia se esvaído com a vida de sua esposa. O ruído dos joelhos se esticando no salão faziam parecer que estava chovendo, mesmo sem haver tantos súditos presentes. No entanto, lá fora o sol vermelho de Creta brilhava em todo seu esplendor, as luzes entrando pelos vitrais espalhados pela abóbada do Castelo Rubro-Negro e explicando o porquê do nome da fortaleza cretense, formando sombras de tom carmim sobre as colunas de mármore escuro.

— Quais são seus assuntos com o imperador? — indagou Minos.

Dédalo, que não esperava que o Barão fosse tão direto ao ponto, engasgou-se e gaguejou.

— O imperador está organizando uma conferência ecumênica entre templos religiosos de vários sistemas solares para debater o novo calendário padrão — mentiu habilmente Navutan.

— Calado. Meu pai não autorizou que você falasse, arqui-sacerdote — esbravejou Diana.

Em momento algum, o Barão deixou de olhar fixamente para Dédalo.

— O-o-o que ele disse é… É verdade, honorável — confirmou o matemático.

Sem que o Barão emitisse qualquer som ou sequer movesse os lábios, sua voz ressoou na mente de Dédalo e Navutan, e apenas deles.

— Não tentem me enganar ou eu denuncio sua comunidade científica em meus domínios — aquilo ecoou, vindo dos microfones instalados em seus ouvidos. A transmissão partiu do computador ocular de Minos, que limitou-se a observá-los, impassível.

Os dois se entreolharam e o decano assentiu para o mais jovem.

— Eu calculei a probabilidade de o imperador sofrer um atentado nos próximos dias e o arqui-sacerdote Navutan comunicou o fato às autoridades imperiais, que ordenaram a realização de uma audiência — disse Dédalo, retomando o diálogo em voz alta e deixando as transmissões neurais de lado.

Minos umedeceu os grossos lábios enquanto o divisava, de cima para baixo, cultivando um silêncio que somente atestava seu controle da situação.

— Você disse que calculou? — perguntou, enfim.

— Calculei utilizando… — começou, mas foi interrompido.

— Ele é, digamos, um profeta de nosso templo — explicou Navutan, o suor na testa brilhava sob a luz avermelhada do sol que adentrava no saguão.

— Compreendo. Vocês seguirão viagem ao anoitecer em um de meus cargueiros, como solicitado. Minha filha Diana os escoltará até Nebulosa e deverá estar presente durante essa audiência perante o imperador.

Mais uma vez, Dédalo voltou o olhar para Navutan, buscando aprovação. O velho assentiu, visivelmente contrariado.

— Sim, honorável — disse.

— Estão todos dispensados.

 

VIII

Era bom sentir a gravidade novamente após mais uma breve porém traumática estadia no espaçoporto de Creta. Certo, isso não é gravidade propriamente dita, pensou. Mas a força centrípeta exercida pelo anel giratório da nave puxava Dédalo constantemente para uma direção, e isso já era mais que suficiente para ele, especialmente após sua primeira experiência em zero-G nada agradável. A intensidade era um pouco superior à da atração gravitacional sentida na superfície de Agro IV, por ser um planeta muito diminuto (politicamente, Agro IV não estava nem listado na categoria “Planeta”, e sim como uma simples colônia de exploração rural que abrigava um templo religioso), mas ele já estava se acostumando àquelas condições após pisar em Creta.

Dédalo estava deitado de barriga para cima na cama rígida de seu quarto, com os olhos vidrados, como se estivesse em um transe. Na verdade, ele assistia a um filme em sua lente. Aquele computador fixado em seus olhos podia armazenar mais conteúdo que o cérebro dos 216 bilhões de habitantes do império de Nebulosa e dos reinos dissidentes. Ele podia baixar as pálpebras e continuar assistindo se quisesse, mas não o fez para não cair no sono sem querer. O filme passava-se diretamente em sua íris, sendo apenas possível ver pequenas luzes piscando em seus olhos para quem o observasse de perto. As pessoas já haviam se acostumado a ter, o tempo inteiro, informações sendo exibidas em suas vistas, como se seus próprios olhos fossem telas de um computador. Algumas das mais excitantes obras de arte eram ilusões compartilhadas em que um holograma era projetado nas lentes dos espectadores, que podiam interagir com as imagens como se elas fossem alucinações coletivas.

Dédalo estava distraído com o filme, que cobria todo seu campo de visão, quando uma pequena notificação de proximidade reluziu em seus olhos. Com o próprio pensamento, ele pausou a reprodução do vídeo e retornou à vista normal. Levou alguns segundos para distinguir o rosto de Diana a cinco centímetros de seu nariz, sentindo a respiração quente dela quebrar-se contra sua boca semiaberta. Os olhos dela pareciam duas supernovas, tão próximos dos seus.

Diana gargalhou assim que Dédalo soergueu levemente a cabeça e, sobressaltado, afastou-se de um pulo.

— O que estava fazendo?

— N-nada!

— Foi-se o tempo em que cientistas eram prestigiados e viajavam a bordo dos mais modernos cruzadores, escoltados por uma ou até mesmo duas fragatas. Hoje em dia, mesmo nos tempos perigosos que vivemos, vocês são deixados à mercê de piratas em corvetas minguadas ou pior, muito pior, em cargueiros fétidos como esse — sorriu, arquejando as finíssimas sobrancelhas como um guarda-chuva sobre o rosto de linhas suaves, lábios carnudos cor de carmim e um cabelo ondulado e não muito comprido, que rebelava-se para todas as direções em meio à microgravidade. — Mas não se preocupe, pois eu estou com vocês — disse, e tocou a o dedo indicador na ponta do nariz de Dédalo.

— Saia do meu quarto! — rugiu ele.

— Ora, não seja tão recluso. Mesmo com toda a tecnologia do nosso nobre império, as viagens interplanetárias ainda são relativamente longas. Não vamos querer passar todo esse tempo trancafiados em celas individuais, vamos? — provocou e foi embora caminhando descontraidamente pelos corredores estreitos de pé-direito baixo, repletos de tubulações à mostra e nuvens de poeira que se levantavam a cada passo.

Passados alguns minutos, Dédalo conseguiu superar as palpitações provenientes do encontro. Finalmente sua frequência cardíaca parou de aparecer no canto da lente e ele pôde retornar ao filme. Diana era claramente muito mais velha que Dédalo, mas por algum motivo… Devo esquecer essa distração, decretou para si mesmo. Apagou a foto que seus olhos haviam tirado automaticamente do rosto dela.

Dizem que para voar basta pular e errar o chão. Essa definição não poderia estar mais correta. A nave errava o chão de Creta por anos-luz de distância, indo parar cada vez mais próxima do chão de Nebulosa.

 

IX

A ideia de exploração espacial deriva do senso de coletividade da raça humana. Ninguém é apenas um indivíduo desvinculado dos outros; ninguém é tampouco apenas um povo, uma nação, uma fronteira. Todos somos pequenas engrenagens de algo muito mais ambicioso. É-nos cara e ao mesmo tempo horripilante essa noção de não sermos apenas nós mesmos, não? Mas de que outra forma explicar a exploração espacial? Uma empreitada que só foi possível após séculos. Quantas pessoas cederam suas vidas em prol de um objetivo que nunca veriam concluído, sem nem a garantia de que em algum momento aquele esforço daria algum resultado? Quantos padeceram sem saber se o trabalho de suas vidas fora em vão? Gerações de cientistas se sacrificaram para que um dia alguém pudesse embarcar em uma nave e desvelar mistérios jamais imaginados por mulheres e homens muitos milênios antes. E todos eles foram fundamentais para que, em algum momento, a humanidade como um todo deixasse de engatinhar, levantasse com as próprias pernas e, eventualmente, abrisse suas asas para voar.

É fato que entre as consequências da relatividade geral, está a inconveniente impossibilidade de se alcançar velocidades superiores à da luz. Essa limitação, todavia, refere-se apenas a coisas como massa, energia e informação transitando pelo espaço. No entanto, não existe nenhuma restrição no que tange o próprio tecido do espaço. Ou seja, dois pedaços do espaço-tempo podem viajar acima da velocidade da luz, um em relação ao outro. A propulsão imperial usa a gravidade para comprimir o espaço à frente e expandi-lo atrás das naves, fazendo com que a máquina em si mantenha-se em uma espécie de bolha, abaixo da velocidade da luz, enquanto o tecido da realidade ao seu redor é distorcido de modo a transportar os passageiros ao destino em um tempo muito superior ao que a luz levaria para percorrer a mesma distância. Aparenta ser simples na teoria. Apenas aparenta.  

A humanidade saiu de um ponto remoto da Etiópia em 195 mil antes de Cristo, levou 70 mil anos para cruzar o mar arábico até a península e mais 65 mil para cruzar a Ásia até o arquipélago das Filipinas. Mais de 20 mil anos se passaram até que a Europa fosse alcançada pela primeira vez, matando aos poucos os neandertais que lá habitavam. Esse foi o mesmo intervalo necessário para chegar às Américas pelo Estreito de Bering. Lugares como a Nova Zelândia não haviam sido pisados por seres humanos até mais de 12 séculos depois de Cristo. Em 1800, quase toda a superfície terrestre havia sido colonizada, mas Urano foi visto muito antes de qualquer pessoa tomar conhecimento da Antártida, onde se chegou pela primeira vez em 1895. Por que explorar? Por que lançar-se ao mar sem saber o que espera do outro lado, ou até mesmo se existe um outro lado? Alçar as velas rumo ao desconhecido parece ter sido a tônica da humanidade desde seu surgimento.

A civilização demorou milhares de anos para ir do lodo para a Lua, o satélite natural de seu lar, o planeta Terra (embora hoje quase ninguém acredite que de fato houve um planeta original, que é tema de mitos, lendas e objeto da crença de inúmeras religiões do império). Da Lua para Marte, passaram-se 65 anos. Depois, precisou-se de 30 anos para visitar Júpiter e 10 para alcançar as fronteiras do sistema solar. A evolução da exploração espacial seguiu em progressão geométrica até que os recursos naturais da suposta Terra extinguirem-se de modo irreparável, obrigando a humanidade a partir na Grande Arca. É sabido que os primeiros colonizadores do império chegaram a Nebulosa há pouco mais de dois mil anos, marcando o início do império, mas a duração da viagem na Arca que levou toda a civilização da Terra para seu novo lar é desconhecida.

A formação de um império interplanetário só foi possível graças a dois fatores principais: a descoberta de uma forma viável de navegar acima da velocidade da luz sem violar as leis da física; e a capacidade de terraformar planetas, ou seja, torná-los habitáveis para seres humanos. Este foi muito mais simples de se alcançar do que aquele. A humanidade passou 200 mil anos adaptando-se a terrenos inóspitos. Transformar planetas nada convidativos em moradias mais ou menos adequadas foi apenas um passo adiante. Contanto que se tenha as condições financeiras para tanto, é claro.

A viagem interplanetária, porém, foi muito mais complicada de se alcançar. Quando os fundadores do império chegaram a Nebulosa, já não faziam ideia de como suas naves haviam sido construídas. Muitas gerações tiveram de se dedicar à engenharia reversa para descobrir como criar outros motores de propulsão como aquele que seus antepassados haviam projetado. É incrível como a sociedade é capaz de regredir intelectualmente dadas certas condições adversas. E isso está acontecendo novamente. O isolamento provocado pela dispersão do império em planetas tão distantes vem mudando muitas coisas nos últimos séculos. A história é pendular, e a humanidade teima em regredir. Basta ver que já não se acredita nem mesmo na Terra, o primeiro planeta, de onde todos teriam vindo. A pessoa doente é a que não sabe contar sua história. A civilização doente é a que ignora sua origem.

Essa é a sina de uma espécie que sempre flertou perigosamente com a glória e a decadência.

 

X

Os dias transcorriam lentamente durante a viagem. Dédalo passava a maior parte do tempo trancafiado em seus aposentos lendo, estudando, exercitando seus cálculos, refinando previsões, criando cenários hipotéticos em que o planeta Thesis declararia guerra contra Métis, ou em que o planeta Opel-B derrotaria seu gêmeo Opel-A no conflito que já perdurava por anos, ou até mesmo em que os reinos dissidentes venciam a guerra contra o império. Quando não estava praticando a matemática que somente ele conhecia em toda a galáxia, lia romances de aventura, jogava videogames e assistia a filmes; tudo estava armazenado em suas lentes de contato eletrônicas.

Por meio do computador de bordo, o arqui-sacerdote enviava e recebia relatórios ao cruzador que havia saído de Agro IV com destino direto a Nebulosa. O tempo de envio e recebimento das mensagens tornou-se cada vez mais longo, até que o cargueiro parou de receber notícias de sua contraparte. Estamos em rotas distintas, eles para a capital e nós para Creta. Distantes demais, concluiu Navutan. Até a missiva nos alcançar, já teremos desembarcado. Sem o auxílio de um computador quântico, as naves tinham de se comunicar por ondas eletromagnéticas comuns, que viajavam à velocidade da luz, o que é muito rápido, mas torna a troca de mensagens em distâncias​ interplanetárias inviável.

Os poucos tripulantes não dirigiam a palavra aos civis, a menos que fosse estritamente necessário. Dédalo, Navutan e Diana faziam as refeições juntos diariamente, mas o decano da Universidade ainda desconfiava da mulher.

— Por que seu pai delegou essa inglória tarefa a você? — questionou o velho, enquanto comia uma solução de substâncias nutritivas sem qualquer sabor.

— Porque eu sou da inteira confiança dele — falou sem nem levantar o olhar da comida. Diferente dos outros dois, a princesa de Creta consumia uma massa fina, preparada por um chef que navegava a bordo da nave. Em geral, os robôs-cozinheiros eram regra, mas Diana preferia o alimento cozinhado e temperado por humanos, com todo seu componente de imprevisibilidade.

— Será que Maria não quer se ver livre de você?

— O que você está insinuando?

— Talvez o Barão não esteja no auge da saúde. É possível que ele se encontre com a mãe de vocês muito em breve e queira deixar a linha sucessória bem definida antes de partir. Eu sou apenas um velho e nada sei das questões da corte cretense, mas se minha memória, para variar um pouco, não falha… Você é mais nova que a sua irmã. Enviá-la em uma missão de espionagem para Nebulosa pode ser uma boa maneira de mantê-la entretida.

Os talheres que tilintavam caíram com um estrondo. Diana o observava enfurecida.

— Eu posso denunciá-lo, seu… Cientista — disse a última palavra degustando cada sílaba e saiu do refeitório. Um robô pequeno deslizou pelo chão para recolher o garfo de prata e limpar os restos que Diana deixou para trás.

Dédalo apenas observava a tensão crescendo no ambiente, preocupado apenas em comer, quando a voz de Navutan invadiu sua mente pelos receptores em seu ouvido.

— Desestabilizei-a emocionalmente para tentar hackear seu computador cerebral e descobrir algumas coisas, porém ela tem criptografias mentais impressionantes, muito além de minhas capacidades de invasão. Não confie nessa mulher.

Nos dias subsequentes, Diana passou a fazer as refeições em um cômodo separado, como era seu direito por fazer parte da nobreza. Dédalo continuava estudando, mas distraía-se com jogos eletrônicos em sua lente com frequência cada vez maior. O tédio o tomava de assalto e o fato de estar longe o suficiente de seu planeta para não poder mais se conectar à rede de Agro IV fazia Dédalo sentir a solidão do espaço mais profundamente que qualquer outra coisa. Ele precisaria de um computador quântico atrelado ao terminal da Universidade para se comunicar com seus amigos, mas aquela nave era de Creta e não tinha nada disso.

Diana evitava Navutan, mas encontrava Dédalo pelos corredores várias vezes por dia, o que era sempre desconcertante para o rapaz, afinal os caminhos ali eram todos estreitos e os dois eram forçados a encostar um no outro para passar. Ela sorria, divertindo-se ao fitar o rosto enrubescido dele enquanto seus seios roçavam-no. Vez ou outra, a nobre fazia perguntas sobre ele, mas não raro Dédalo esquivava-se, evitando respondê-las.

— Por que tanta timidez? — questionou Diana, quase batendo a cabeça no teto do corredor. O chão côncavo do anel giratório curvava-se quase imperceptivelmente, aproximando ainda mais os olhares dela dos dele.

— Com licença, preciso encontrar Navu…

— O velho está dormindo — ela interrompeu.

Dédalo arregalou sutilmente os olhos, mas o silêncio que recaiu sobre o ambiente apertado por alguns segundos o ajudou a pensar em algo para dizer. Não que fosse algo original, mas pelo menos era alguma coisa, o que já era uma evolução tendo em vista seus encontros anteriores com Diana.

— Qual é o propósito de sua viagem, afinal?

— Estou aqui apenas para protegê-los.

A escotilha localizada na parede ao lado deles exibia uma exuberante vista da galáxia, as estrelas preenchendo toda a paisagem, até onde podia-se divisar.

— E qual é o seu objetivo verdadeiro?

— Essa é uma pergunta com muitos significados, menino — arrematou, seguindo em frente e o deixando estático — ou extático? — no corredor. Diana virou-se para observar a expressão confusa de Dédalo e seus lábios abriram-se em um sorriso que o engolia.

 

XI

Por um breve momento, Dédalo pensou ter visto Nebulosa em toda sua imensidão, um corpo celeste tão imaginavelmente grande e iluminado que deveria ser apenas uma ilusão. A profusão de cores, luzes, naves, letreiros iluminados por néon, estruturas de metal escovado reluzente, robôs voando por todos os lados, cargas sendo transportadas em um bailado caótico… Tudo aquilo o hipnotizou de tal modo que ele realmente pensou ter visto Nebulosa. Só então se deu conta de que tinha avistado apenas o espaçoporto de Nebulosa, que por si só já era mais resplandecente que Agro IV. Pela impressão que aquela construção causara em Dédalo, ele podia jurar que a estação espacial era maior do que o planeta de onde ele partira havia dez dias.

Através do vidro embaçado da escotilha, o jovem matemático observava incrédulo o espaçoporto com seus cruzadores, cargueiros, fragatas, corvetas, caravanas de comerciantes, naves policiais, robôs de transporte, embarcações particulares, contratorpedeiros, até mesmo um ferro-velho que mantinha-se na mesma órbita estacionária da estação. Somente a quantidade de sucata armazenada lá parecia, aos olhos do garoto caipira, maior e mais imponente do que qualquer coisa que já vira até então. Ao longe, divisou um porta-naves, o maior tipo de embarcação militar que existia no império, do qual entravam e saíam dezenas de objetos que ele não conseguia identificar a olho nu.

O lixo espacial e os inúmeros satélites visíveis na órbita de Nebulosa confundiam-se, para quem ainda não havia penetrado a atmosfera, com as doze luas multicoloridas do planeta. Essas cores haviam sido criadas artificialmente com a instalação de pedras preciosas na superfície de algumas luas que receberam o nome do minério com que foi revestida. Dédalo conseguiu distinguir as luas Esmeralda, Rubi, Safira e Ametista através do vidro, mas seu campo de visão era limitado.

Somente quando o anel giratório da nave colocou-o em um certo ângulo, ele pôde ver mais luas, mas aquilo já não importava. O que surgia em sua janela era muito maior, muito mais soberbo do que tudo o que Dédalo já havia testemunhado em sua vida anterior de caipira e matemático. Ele vira muitos filmes em realidade virtual que se passavam em Nebulosa. Imaginou que não seria uma grande surpresa visualizar uma paisagem em que ele já havia estado virtualmente. Não poderia ter se enganado mais. Pode ser que alguns lugares não traziam nada de novo quando vistos ao vivo, mas ninguém seria capaz de se esquecer da primeira visão de Nebulosa.

O primeiro vislumbre que Dédalo teve da opulenta capital do Império Humano de Órion — afinal tudo o que a humanidade já havia explorado reduzia-se a uma pequena fração do braço de Órion, na espiral da Via Láctea — foi um imenso ponto escuro em meio aos focos de luz, que ele logo descobriria ser a única floresta do planeta, nos arredores do palácio imperial. Era madrugada onde o imperador repousava, mas isso não significa que a capital dormia. Nebulosa era um planeta de uma só cidade, como cavernas de aço em uma selva de arranha-céus. Recoberto por metal, aquele já fora um paraíso natural, com florestas, montanhas, lagos, oceanos, desertos, pradarias, campos, pântanos, cordilheiras, colinas, vulcões, rios, ilhas, arquipélagos, fiordes, praias, geleiras e tudo o que se pode imaginar. Toda sorte de plantas crescia e, embora ainda não houvesse vida animal por ser um planeta relativamente jovem, já existiam microorganismos em enormes quantidades. Ninguém mais sabe disso hoje em dia, mas foram essas características que fizeram a humanidade apontar sua Grande Arca para Nebulosa quando a Terra se tornou inabitável.

Agora nem mesmo o oxigênio da atmosfera era natural. Tudo era fabricado artificialmente para sustentar o ritmo de vida dos habitantes da capital. Cordilheiras de montanhas foram aplainadas, vales foram preenchidos, desníveis foram nivelados, rios, lagos e oceanos secaram, pântanos e desertos desapareceram, florestas foram devastadas, geleiras foram derretidas, vulcões foram calados, assim como a vida. A supremacia tecnológica da humanidade relegou  a atividade geológica de Nebulosa a nada, transformou tudo em terreno fértil para a construção de edifícios cada vez mais grandiosos, até que toda a superfície do planeta foi tomada por uma única cidade, que se estendia de um polo a outro. A linha do equador era a avenida principal de Nebulosa. Pessoas moravam em um hemisfério e trabalhavam em outro. Locomoviam-se em questão de minutos entre pontos antipodais. Começo e fim eram homogêneos, a mesma coisa. As distâncias físicas foram vencidas, mas algo havia se perdido, e não era de agora.

A noite na cidade de Nebulosa era tão iluminada pelos postes e máquinas e luminárias e naves e casas e lojas e empresas e estabelecimentos e prédios e ruas e vias aéreas e luzinhas que piscavam intermitentemente sem qualquer motivo aparente, que o planeta parecia emitir luz própria no hemisfério que não estava sendo tocado pelo sol. Dédalo então ativou a proteção ocular de suas lentes e olhou diretamente para o sol de nebulosa, mas o que viu foi decepcionante. Ele não brilhava tanto como ele esperava. Algo o eclipsava parcialmente. Com cuidado, o jovem aumentou o zoom em suas lentes, e então notou que uma imensa estrutura estava sendo construída na órbita baixa da estrela. Aquele era um captador de energia solar que deveria permitir que Nebulosa tivesse uma eficácia energética muito maior, porém estava em construção havia séculos.

Energia, aliás, era a principal deficiência da capital, além, é claro, de água, comida e recursos naturais. O planeta tirava o que precisava de suas luas. Havia os satélites naturais que não eram utilizados para nada, pois haviam sido revestidos de pedras preciosas para ostentar o poderio do império. Outros, porém, eram reservatórios para Nebulosa. Solaris era uma lua que havia sido inundada até ter todos os pontos de sua superfície totalmente submersos, e de lá retirava-se a água de que a capital necessitava. Um pouco da comida e dos minérios eram cultivados e extraídos das outras luas, mas a maior parte ainda era recebida como tributo imperial recolhido pelos outros 107 planetas submissos ao trono de Nebulosa. As recentes tensões políticas, a guerra com os reinos dissidentes e a crise econômica do império eram alguns dos fatores que Dédalo havia colocado em seus cálculos para descobrir que o imperador corria perigo.

O jovem matemático sobressaltou-se quando uma mão tocou seu ombro.

— Chegamos, garoto — disse ternamente o arqui-sacerdote da Universidade de Agro IV.

A primeira decepção com Nebulosa veio antes mesmo de chegar à superfície do planeta. Pensei que eles já tivessem solucionado o problema da gravidade artificial, lamentou Dédalo, percebendo que teria de flutuar para chegar ao saguão principal do espaçoporto. Só então ele notou uma coisa, observando os outros passageiros. Embora houvesse permanecido recluso naquele fim de mundo, Navutan tinha uma certa destreza para se locomover sem gravidade. Será que ele viajou bastante em sua juventude? Diana era uma excepcional flutuadora, podia mover-se com a fluidez de uma bailarina e a ferocidade de uma guerreira, voando como uma ave de rapina pelos corredores da estação espacial.

O elevador era um luxo. Um gigantesco tubo transparente com 100 metros de diâmetro com lojas, cafeterias, tabacarias, loterias, restaurantes, toda sorte de estabelecimento que se podia imaginar. Máquinas vendiam bebidas e comidas a preços proibitivos, anúncios piscavam por todo lado — inclusive nas lentes de Dédalo, que mal conseguia distinguir qualquer coisa à sua frente e precisou desativar as propagandas — e placas eletrônicas estampavam notícias, traziam curiosidades e apontavam direções. O jovem notou também que era a primeira vez que ele descia consciente pelo elevador, e só então descobriu como o ouvido se tampa se faz esse trajeto rumo à superfície, onde a pressão atmosférica é muito maior. Logo, descobriria que essa não era a única pressão a aumentar quando se chega ao rés do chão de Nebulosa.